A pandemia do Covid-19 provocou um cenário estressante pela alta mortalidade de pessoas em um curto período de tempo, pela sensação de insegurança diante de uma doença sobre a qual se sabia pouco, não se tinha perspectiva de cura e pelo isolamento social necessário para conter a propagação do vírus. Além disso, efeitos não diretos, mas decorrentes da pandemia também provocaram dificuldades emocionais em toda a população mundial como aumento da violência doméstica, desemprego e agravamento das dificuldades socioeconômicas.
Antes mesmo da pandemia do Covid-19 provocar o agravamento dessa situação, a educação socioemocional já estava se tornando fonte de atenção tanto pela literatura educacional quanto pela SEDUC. Isso porque a adolescência é um período desafiador, momento em que a personalidade do indivíduo se forma e, portanto, a opinião do outro é importante e influencia nas decisões, gostos e comportamento dos adolescentes. Questões como bullying, ansiedade para provas e testes já vinham preocupando por afetar a qualidade de vida e também a aprendizagem dos estudantes.
Teorias da Psicologia oferecem suporte para compreender o indivíduo em seus traumas emocionais e psicológicos e também para propor estratégias de atuação para o desenvolvimento da educação socioemocional. Neste contexto, destaca-se a Psicologia Positiva que é uma ramificação da Psicologia, também chamada de Nova Psicologia. Esta área coloca-se como uma alternativa à abordagem tradicional da Psicologia. Enquanto esta se preocupa em resolver os problemas da psique humana, a Psicologia Positiva dedica-se a desenvolver a felicidade humana, trabalhando o bem-estar como medida preventiva (ZAMBIANCO, 2020). Ela se estrutura nos estudos de Salovey e Mayer (1990) e nas contribuições do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi (NAKAMURA; CSIKSZENTMIHALYI, 2009) sobre seu conceito de fluxo.
Outro fundador importante da Psicologia Positiva é Martín Seligman que foi reconhecido por seu discurso como presidente da American Psychological Association. A Psicologia Positiva consegue tratar patologias psicológicas, mas utiliza uma abordagem de felicidade, de emoções positivas e bem-estar em uma abordagem diferente da ciência da psicopatologia.
Em sua teoria do bem-estar, Seligman (2011) propõe que a saúde mental é composta de cinco elementos mensuráveis entendidos como uma presença: presença de emoção positiva, presença de entrega, presença de encontrar sentido na vida, presença de relações pessoais satisfatórias e presença de realizações.
O modelo P.E.R.M.A., elaborado por Martin Seligman (2011), é uma sigla da língua inglesa que se refere a cinco pilares que quando atingidos conduzem ao bem-estar. O “P” refere-se às emoções positivas, como por exemplo a felicidade e a satisfação com a vida, que ao serem sentidas, são como combustível para os pensamentos, sonhos e realizações. O “E” refere-se ao engajamento, caracterizado por uma situação de atenção, onde o indivíduo estaria completamente focado (SELIGMAN, 2011). Pessoas mais engajadas tendem a trabalhar melhor e desenvolvem mais energia e dedicação.
Já o “R” refere-se aos relacionamentos positivos, simbolizam a integração e a colaboração na área alheia, a construção de conexões e o trabalho em equipe. O “M” ou Meaning se refere a encontrar um significado no trabalho realizado, um sentido baseado em quem gostaríamos de ser e de realizar nossos sonhos, encontrar um propósito para que a nossa rotina não entre no automático. E por fim, o “A” que se relaciona com Accomplishment e corresponde a atingir os nossos objetivos, tanto aqueles pequenos e momentâneos quanto os que definimos para a nossa vida. Posteriormente a cada conquista é gerada uma sensação de autonomia, bem-estar e eficácia.
A prática de meditação tem sido objeto de estudo em diversas pesquisas e sua contribuição para o desenvolvimento de emoções positivas proposta pela Psicologia Positiva e por Martín Seligman, em especial, tem sido destacada. Além disso, diversas são as técnicas que podem ser utilizadas como práticas de meditação, por exemplo, mindfulness, meditação transcendental, entre outras.
Ivtzan, Niemiec e Briscoe (2016) ofereceram uma prática online de fortalecimento de caráter baseada em mindfulness (MBSP) de 8 semanas para a população em geral e estudaram sua eficácia sobre o bem-estar das pessoas comparando com um grupo controle. Utilizando questionários de níveis de bem-estar e florescimento pré e pós-intervenção, os participantes do MBSP pontuaram significativamente mais alto em todas as quatro medidas realizadas. Wisner (2014) aplicou a meditação mindfulness para 35 estudantes do ensino médio durante 8 semanas. O autor levantou as seguintes vantagens da participação na atividade de meditação: melhor gerenciamento do estresse, maior autoconsciência, maior enfrentamento, capacidade aprimorada de prestar atenção, estado aprimorado da mente, tempo gasto com mais calma, melhora do clima da escola e maior envolvimento dos alunos. Esses benefícios compõem três amplos domínios de benefícios percebidos para estudantes: intrapessoal, psicossocial e sistêmico. Já Arthington (2016) reflete sobre a prática de meditação mindfulness e seu caráter comercial que pode ter seu sentido neglicenciado afastando-se de seus reais propósitos de trazer bem-estar aos praticantes.
Rosaen e Benn (2006) aplicaram a meditação transcendental que consiste em técnicas de relaxamento do corpo e da mente a dez estudantes da sétima série por um período de um ano. A partir de entrevistas semiestruturadas, as autoras verificaram que o programa contribuiu para desenvolver um estado crescente de alerta repousante; melhorar as habilidades indicativas de inteligência emocional (autocontrole, autorreflexão/consciência e flexibilidade na resposta emocional); melhorar no desempenho acadêmico.
Diante disso, o cuidado com a saúde emocional tanto quanto com a aprendizagem conceitual foi destacado na Base Nacional Comum Curricular e endossada pelo Currículo Paulista:
Quadro 1. Competências Gerais da Educação Básica, reiteradas pelo Currículo Paulista.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. (SÃO PAULO, 2020, p. 23).
O Currículo Paulista acrescenta ainda a necessidade de a escola criar estratégias e implementar ações com objetivos claros para trabalhar a educação socioemocional dos jovens:
Diante dessas novas realidades e estímulos, é importante que a escola tenha estratégias e objetivos claros e intencionais que possibilitem aos jovens aprofundar a compreensão sobre si mesmos e sobre o mundo à sua volta, para que possam se desenvolver em seus aspectos intelectual, físico, social, emocional e cultural, a fim de se preparar de forma plena para a inserção na vida adulta. (SÃO PAULO, 2020, p. 38).
Neste subgrupo, os docentes produzem conhecimentos sobre técnicas e atividades que podem ser desenvolvidas com professores e estudantes para trabalhar a educação socioemocional com destaque para meditação, escuta ativa e rodas de conversa.
Algumas fotos:
Referências:
ARTHINGTON, P. Mindfulness: A critical perspective. Community Psychology in Global Perspective, v. 2, n. 1, p. 87-104, 2016.
IVTZAN, I.; NIEMIEC, R. M.; BRISCOE, C. A study investigating the effects of Mindfulness-Based Strengths Practice (MBSP) on wellbeing. International Journal of Wellbeing, v. 6, n. 2, 2016.
NAKAMURA, J.; CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow theory and research. Handbook of positive psychology, v. 195, p. 206, 2009.
ROSAEN, C.; BENN, R. The experience of transcendental meditation in middle school students: a qualitative report. Explore, v. 2, n. 5, p. 422-425, 2006.
SANTAELLA, L. Epistemologia Semiótica. Cognitio: Revista de Filosofia, v. 9, n. 1, p. 93-110, 2008.
SALOVEY, P.; MAYER, J. D. Emotional intelligence. Imagination, Cognition, and Personality, v. 9, p. 185-211, 1990.
SÃO PAULO. Currículo Paulista, 2020.
SELIGMAN, M. E. P. Florescer: Uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar (C. P. Lopes, Trad.). Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
WISNER, B. L. An exploratory study of mindfulness meditation for alternative school students: perceived benefits for improving school climate and student functioning. Mindfulness, v. 5, n. 6, p. 626-638, 2014.
ZAMBIANCO, D. D. P. As competências socioemocionais: pesquisa bibliográfica e análise de programas escolares sob a perspectiva da psicologia moral. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas. 2020.